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Reformas de Temer contrastam país real e Brasil caricato (ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO 11/04/2017)

O escritor Machado de Assis disse certa vez que existiam dois brasis: o real e o oficial, este último caricato e burlesco. A crítica ao então governo da época cai como uma luva nos tempos atuais.

Diante do Brasil real dos trabalhadores, estudantes e donas de casa —que rejeitam as novas regras para aposentadoria— e do Brasil oficial de Michel Temer, que para aprovar suas reformas passa a admitir agora “flexibilizar” alguns pontos, entre os quais os relativos à aposentadoria de professores e trabalhadores rurais, bem como o acúmulo da aposentadoria com pensão, desde que sejam ambas de somente um salário mínimo.

Essa manobra tem três objetivos básicos: tentar enganar a população, cada vez mais consciente de que a pauta do governo é contra os seus interesses; confundir os movimentos sociais para diminuir a pressão contra essa política antipovo, contra a qual está convocada uma greve geral para o dia 28 de abril; e fornecer algum “argumento” para que a sua base —cada vez mais preocupada com as urnas de 2018— aprove esse pacote de maldades, na medida em que hoje o governo não tem votos para aprovar essa reforma.

Com uma popularidade de 1% de ótimo, juntar-se a Temer significa o “abraço dos afogados”, especialmente quando sua contrapartida é ainda pior: 13 milhões de desempregados; ataque aos direitos sociais e trabalhistas do povo; destruição das empresas nacionais; entrega do patrimônio público a grupos estrangeiros; comprometimento de nossa soberania; e profunda instabilidade política e econômica.

Por enquanto, apenas os especuladores financeiros, cuja lucratividade dobrou, têm razões para defender Temer.

A reforma de que o Brasil necessita não é a da Previdência, mas a da base macroeconômica, capaz de impedir a destinação de recursos públicos para enriquecer meia dúzia de rentistas. Como já disse, é preciso limitar os gastos financeiros com pagamento de juros e serviços da dívida.

O justo seria adotar uma reforma tributária estruturante baseada no fim do atual sistema regressivo, que tributasse lucros e dividendos das grandes fortunas e ampliasse as faixas do Imposto de Renda. Infelizmente, no Brasil, são os pobres quem mais pagam impostos.

Maquiavel dizia que o ideal do príncipe era ser amado e temido a um só tempo. Mas, ao reconhecer que esses sentimentos eram incompatíveis, recomendava que o príncipe optasse por ser temido. O apoio viria pelo medo, pelo terror.

Já que Temer não pode seguir a máxima, recorre a manobras táticas para tentar ludibriar toda uma nação que vive no Brasil real, e não no caricato.

PS: Este é meu último artigo nesse espaço. Despeço-me agradecendo a todos que me honraram com sua leitura e ao jornal pela oportunidade.

Folha_de_São Paulo 11_de_Abril_de_2017 Primeiro_Caderno pag 2